Abdón Porte: O jogador de futebol que se suicidou no estádio de futebol | Noite Sinistra
19/03/2018

Abdón Porte: O jogador de futebol que se suicidou no estádio de futebol


Hoje resolvi trazer de volta para a página principal do blog Noite Sinistra uma matéria que já estampou nossas páginas no ano de 2014, isso porque dia 5 de março de 2018 marcou o centésimo aniversário da morte de uma das figuras mais emblemáticas do futebol sul americano: Abdón Porte, o jogador uruguaio que tirou a sua própria vida dentro do estádio do Nacional de Montevidéo.

Como pudemos acompanhar numa série de reportagens aqui no blog Noite Sinistra nos famigerados meses que precederam a copa do mundo de 2014 realizadas aqui no Brasil (os links para essas matérias se encontram logo mais abaixo), o futebol nos reserva algumas histórias curiosas e até mesmo macabra. Esporte que movimenta paixões e ódios, tanto dentro como fora de campo. O tema de hoje é um fato que aconteceu a pouco mais de 96 anos atrás, mas que ainda hoje faz parte da história de um dos estádios de futebol mais emblemáticos da América do Sul.

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Não são apenas as três Libertadores conquistadas e outras incontáveis glórias que fazem o Nacional ter uma das camisas mais pesadas do mundo. Se a casaca tricolor força como chumbo os ombros de quem tem a honra de vesti-la, é porque já que foi imortalizada e reverenciada de forma extrema por Abdón Porte, verdadeiro mártir do Bolso, cuja morte completa 100 anos em 2018.

Cada jogador que hoje chega ao vigésimo clube da carreira e mecanicamente beija o distintivo para posar em frente aos fotógrafos comete um ato de supremo desdém a um esporte que teve em suas fileiras Abdón Porte, o homem que levou a um patamar insuperável a frase hoje pronta e muitas vezes vazia de “dar a vida pela camisa”. “El Indio” defendeu o clube de 1911 a 1918, mais de 200 jogos, e conquistou um número de títulos vestindo o manto tricolor que ainda hoje não foi igualado.

O Gran Parque Central no Uruguai, é um estádio de história impar. Palco da Copa de 1930 e considerado o estádio mais antigo da América do Sul, mas a casa do Nacional é bem mais do que um dos berços do futebol uruguaio. Também é berço da própria nação uruguaia. Afinal, em 1811, 89 anos da inauguração da cancha, José Artigas seria nomeado naquele mesmo local o ‘Jefe de los Orientales’, líder que comandaria a Banda Oriental em sua independência. E, ao mesmo tempo em que o campo sagrado é um nascedouro histórico, também serviu de leito de morte. Em 5 de março de 1918, o meio-campista Abdón Porte tirou sua própria vida dentro do estádio.


Uma história de amor e loucura pelo clube

Porte era bem mais do que um simples jogador do Nacional. Era um grande ídolo da torcida. El Indio chegou ao clube em 1911. Tornou-se titular absoluto em pouco tempo e também ganhou a braçadeira de capitão, graças ao seu espírito guerreiro. Um leão na proteção do meio-campo, ajudou o Bolso (apelido do clube Nacional) a conquistar 19 títulos, incluindo quatro do Campeonato Uruguaio. Porte chegou ao seu auge em 1917, quando não apenas fez parte da seleção uruguaia na Copa América, como também ergueu a taça de campeão.

“Era um típico homem defensivo, de estilo combativo. Tenaz meio-campista de um período brilhante do futebol oriental. Abdón Porte era notável, com virtudes e qualidades extraordinárias, defensivas e de colaboração, bem conhecidas e recordadas por muito tempo, pelos torcedores do passado. Era um rapaz muito bom, amigo dos amigos”, define o escritor Luis Scapinachis, no livro ‘Gambeteando frente al gol’.

No entanto, o declínio foi implacável com Porte. Perdeu o lugar entre os titulares do Nacional. Não conseguia mais intimidar os adversários. A muralha que se montava na cabeça da área tricolor ruíra. Até mesmo os torcedores, que antes mal deixavam seu nome ser anunciado antes da partida, de tantos que eram os aplausos, começaram a vaiá-lo. Em um tempo no qual não existiam substituições, El Indio passou a frequentar as arquibancadas quando era preterido. Passou a conviver com os olhares tortos daqueles que antes o amavam. Aquilo era demais para ele. Para quem sentia que o Nacional era a própria vida.

Em 4 de março de 1918, Porte disputaria aquela que seria a sua última partida de futebol. Esteve em campo durante os 90 minutos da vitória do Nacional sobre o Charley por 3 a 1. Depois da partida, jogadores e dirigentes do Nacional se reuniram na sede do clube para festejar. Naquela mesma noite, Porte foi avisado que seria reserva em definitivo. Um golpe duro demais para o feroz meio campista. El Indio se despediu no início da madrugada, apontando o horário do último trem para sua casa. Mas, na verdade, ele voltaria ao Gran Parque Central.

Porte se dirigiu até o centro do campo onde se sagrou ídolo e viveu os dias áureos da sua vitoriosa carreira. Foi encontrado apenas na gélida manhã seguinte, pelo jardineiro do estádio. Estava caído, seu coração sem mais pulsar, com um tiro no peito. Tinha nas mãos um revólver. E, em um chapéu de palha, duas cartas. A primeira, endereçada ao presidente do clube: “Querido doutor José Maria Delgado. Peço a você e aos demais companheiros da comissão que façam por mim como fiz por vocês: façam por minha família e por minha querida mãe. Adeus querido amigo da vida”. Na mesma carta, um poema deixando evidente sua paixão pelo Bolso:

“Nacional, ainda que em pó convertido
e em pó sempre amante.
Não esquecerei um instante
o quanto te amei.
Adeus para sempre”.

A depressão pela reserva se somava à dor pela perda de dois de seus irmãos, também ex-jogadores do Nacional, vítimas da varíola. Porte tinha o casamento marcado para menos de um mês. Mas Porte preferiu dar cabo à própria vida ao se ver afastado de seu verdadeiro amor, em uma época onde honra e amor as cores tinha grande valia no futebol.

O velório de Porte foi acompanhado por centenas. Outros clubes uruguaios se solidarizaram com o Nacional e até mesmo o Peñarol enviou uma coroa de flores. Já o Montevidéu Wanderers se ofereceu para uma partida amistosa, que pagaria os custos da família. “O Nacional era seu ideal, ele o amava como o crente ama sua fé, como o patriota ama sua bandeira”, definiu Numa Pesquera, então dirigente tricolor. Em honra ao ídolo que deu a própria vida ao Bolso, uma das tribunas do Gran Parque Central hoje se chama Abdón Porte.



Os 100 anos da morte de Abdón Porte

Para lembrar e reverenciar o mártir, o Nacional lançou uma linda e trágica camisa de cor vermelha – ou melhor, de cor sangre de Abdón, usada há duas semanas frente ao Progreso, pelo Campeonato Uruguaio. E, no último fim de semana, a torcida armou um imponente mosaico para mostrar que um dos mais célebres suicidas da história do futebol permanece incólume na condição de esteio moral nas mais íntimas gavetas da índole tricolor.

O culto a Abdón Porte e a forma como entrou para a história, no entanto, não são vistos de forma romântica por todos. Diante da exaltação do seu ato extremo, especialmente nestes 100 anos de sua morte, alguns especialistas alertam sobre os perigos de glorificar a decisão do eterno capitão tricolor. "É preciso ter cuidado com a mensagem e criticar ativamente o suicídio sem estigmatizar quem se suicida. É preciso transmitir que existem outras formas de expressar o amor e o compromisso por uma camisa, por um projeto ou por qualquer outra coisa”, explica a psicóloga Silvia Peláez, diretora de uma ONG de prevenção do suicídio, em matéria do El Observador.



Quando amanhecer, você já será um de nós...
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