A história de Valentina, a menina que dormia entre os mortos Pular para o conteúdo principal

A história de Valentina, a menina que dormia entre os mortos


Na década de 90 aconteceu o terrível genocídio de Ruanda. Aqui no blog Noite Sinistra já falamos um pouco desse assunto em uma outra matéria destinada a falar da pior prisão do mundo (clique AQUI para saber mais a respeito dessa prisão e também do genocídio de Ruanda). Uma marca indelével de infâmia no coração da evolução humana. Valentina Iribagiza é o exemplo vivo da memória daquela barbárie.

Valentina, na época com 12 anos, foi uma das escassas sobreviventes tutsis da matança de Nyarubuye. Sobreviveu aos ataques dos hutus e permaneceu escondida entre mais de 2.000 cadáveres na Igreja do local durante 43 dias; mimetizando um fio de vida entre o fedor, a morte e o ódio racial e irracional que embriagou toda uma nação.

Ódio étnico como combustível para o massacre

Valentina vivia com seus pais e seis irmãos em Nyarubuye, uma tranquila aldeia ao sudeste de Ruanda. Até princípios dos anos 90 a convivência entre as etnias hutus ou tutsis baseava-se no respeito simbiótico herdado de séculos de confrontos e polêmicas sem sentido.

Os hutus não esquecem as afrontas dos antepassados tutsis que protagonizaram no século XVI diversas campanhas militares para acabar com os príncipes hutus e pendurar seus genitais nos tambores de guerra que depois troavam por todo o país.

O assassinato do presidente Habyarimana e o avanço da Frente Patriótica Ruandesa desencadeou o derrame de ódio e ira por toda Ruanda. Começaram as matanças e queima de casas por parte das milícias hutus, obrigando uma deslocação em massa de pessoas para campos de refugiados situados na fronteira com os países vizinhos.

Para promover a barbárie, os hutus que controlavam as forças armadas fomentaram um desejo assassino na população civil, colocando armas nas mãos deles e decretando "morte aos Tutsi". Apesar de contar com o exército, foram as machetes que se tornaram infames nesses horríveis massacres. As machetes, eram usadas como ferramenta de intimidação, de tortura e, é claro, morte. Estima-se que um em cada três hutus, recebeu uma machete de presente do governo com as ordens de usá-las contra os inimigos. Os Hutus usavam essas facas longas e afiadas para mutilar seus inimigos - os termos "manga comprida" e "manga curta", designavam onde o membro seria cortado: na altura do pulso ou do cotovelo. A população de Ruanda até hoje mostra as cicatrizes desses anos de loucura com milhares de desaparecidos, mutilados e traumatizados.

Em meio a esse conflito Valentina e sua família se resguardaram na igreja de Nyarubuye, um refúgio de imunidade fictícia, junto com 2.000 tutsis e hutus que não haviam aderido a carnificina contra os rivais, e justamente por isso estavam sendo acusados de traição.

- "Na sexta-feira, 15 de abril, chegaram os assassinos, encabeçados por Sylvestre Gacumbitsi, o prefeito de minha cidade. Reconheci muitos de meus vizinhos hutus entre os mais de 30 homens que rodeavam a igreja. Levavam facas e facões... Primeiro pediram que entregássemos nosso dinheiro, dizendo que aqueles que pagassem se livrariam da morte. Mas após pegar o dinheiro mataram todos. Começaram então a jogar granadas. Vi um homem explodindo pelos ares, em pedaços. Diziam que éramos serpentes e que para matar as serpentes tinham que cortar a cabeça..." - Valentina Iribagiza.


Naquela tarde de 15 de Abril de 1994 começou a carnificina. À noite os assassinos foram embora mas voltaram no dia seguinte, e no seguinte, e no seguinte... com mais refugiados os facões eram postos a trabalho. Mais de 10 mil pessoas morreram em Nyarubuye, sendo que pelo menos 2.000 corpos jaziam na Igreja.

Valentina, seguindo o de sobrevivência, escondeu-se entre aqueles cadáveres, junto a sua mãe e fingiu estar morta. Antes disso tinha recebido muitos golpes durante os ataques. Valentina havia recebido uma machadada na cabeça e quatro dedos da mão direita quebrados. O sangue e calma eram o melhor de seus disfarces e o que lhe salvou a vida.

Quatro dias ela ficou quase sem se mover, segurando a respiração ao menor movimento; sempre agasalhada pelos corpos de sua própria família e bebendo a suja água da chuva que gotejava pelas feridas da própria igreja. Presa ao pânico, seus escassos movimentos eram calculados no compasso do silêncio do inimigo.

"... era muito tarde, ao redor das 2:00 da madrugada, quando os hutus voltaram. Se encontravam alguém com vida, esmagavam sua cabeça com pedras. Vi como golpeavam -uma contra outra- as cabeças de dois irmãos conhecidos até sua morte. Um deles calcou minha cabeça. Agitou meu pé para ver se eu estava viva. Disse, 'Esta tá morta', e se foi. Vivi entre os mortos por um longo tempo. Pela noite, os cães vinham comer os corpos. Uma vez notei que um cão estava comendo alguém do meu lado. Atirei-lhe algo e fugiu enquanto os soldados vigiavam o perímetro para que ninguém escapasse. Escondi-me em uma dependência menor e com menor número de cadáveres. Ali foi onde cochilei e aguentei durante 43 dias." - Valentina Iribagiza

Valentina passou sua quarentena mais difícil entre cadáveres, amparada pela morte que tanto temia. Seu refúgio e sua defesa eram os corpos putrefatos de toda a comunidade junto a qual ela tinha crescido e a que seguia vendo dia a dia, mas agora com as pálpebras fechadas para sempre.

Seu corpo, maltratado a golpes e feridas (mal podia se arrastar), estava se descompondo em vida, infestando-se de larvas, piolhos e toda a ferrugem que precede a morte. Com muita dignidade e consciência, esperava o espreito da mais temido das passagens; afinal de contas nada poderia ser pior que aquele inferno.

Na manhã do quadragésimo terceiro dia um soldado da "Interahamwe" entrou na igreja e topou, em um descuido, com uma Valentina viva, mas semi-consciente e abatida. Levantou-a com uma mão só e disse: "Chegou tua hora. Vou enforcar você e deixá-la no mesmo lugar". O único resquício de sorte na vida de Valentina ocorreu quando mais precisava. Um grupo de militantes do FPR, acompanhados de um soldado francês, interrompeu a manobra do selvagem e resgatou à menina de sua última batalha com a morte. Levaram Valentina a Kibungo, onde passou mais de seis meses no hospital se recuperando das terríveis feridas.


Fonte: Mdig

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