O fosso dos sacrifícios: Uma descoberta sinistra em uma caverna de Belize Pular para o conteúdo principal

O fosso dos sacrifícios: Uma descoberta sinistra em uma caverna de Belize



Por volta da meia noite um homem acordou ouvindo um som estranho cortando o silêncio noturno.

O sujeito, um tranquilo fazendeiro menonita (um ramo religioso bastante conservador) morava no interior de Belize e levava uma vida humilde acordando cedo e trabalhando duro. Os gritos eram de gelar o sangue e o deixaram obviamente preocupado. Mandando sua esposa e filhos se trancar em casa ele apanhou um lampião e saiu com dois cães para descobrir de onde vinham aqueles gritos. Os animais o levaram até uma ravina pontilhada por grutas, e lá ficaram latindo sem parar.

Ele descobriu então que os berros vinham de dentro de uma das cavernas e foi investigar. Lá dentro havia uma fissura no chão; um estranho havia caído de uma altura de 18 metros no fundo de uma câmara profunda imersa na escuridão. Ele pediu ajuda de vizinhos e alguém usando uma corda resgatou o sujeito que havia quebrado as duas pernas com fraturas expostas.

O que chamou a atenção, no entanto, não foi apenas o fato daquele sujeito ter se ferido gravemente. Mas onde ele havia caído.

No passado, Belize foi uma das mais prósperas regiões sob o domínio da Civilização Maia. Os Maias pontilharam o interior e as montanhas com cidades e templos que após terem sido abandonados se transformaram em ruínas. A pequena gruta ocultava a entrada para um lugar usado pelos Maias em seus rituais religiosos.


O homem que havia caído no fosso era um saqueador de artefatos arqueológicos, uma ocupação criminosa em Belize mas ainda assim, bastante difundida entre os cidadãos de baixa renda. Um artefato arqueológico pode ser vendido por algumas dezenas de dólares numa feira para estrangeiros, sem falar que itens de ouro ou prata podem render muito mais se derretidos. O sujeito já tinha ouvido boatos sobre itens pertencentes a Civilização Maia naquela região e havia ido até lá na esperança de encontrar algo. Conseguiu apenas se machucar feio e inadvertidamente achar algo espantoso.

A caverna passou a ser chamada "Mitnacht Schreknis Heel" que no idioma Plautdietsch (o dialeto Germano-holandês usado pelos menonitas) significa "Caverna do Terror Noturno". O nome combinava bem com o ambiente.

Uma das razões para os gritos de desespero não era apenas a dor do saqueador. Após mergulhar na escuridão, o homem aterrizou em uma enorme montanha de ossos humanos. Milhares de ossadas ancestrais empilhadas na escuridão há milênios. Acendendo um fósforo ele se deparou com aquele horror indescritível. Seus gritos ecoaram, como se ele tivesse adentrado na antecâmara do inferno. 

Arqueólogos e especialistas em Antropologia Forense da Universidade de Belmopan, além de professores da Universidade da Califórnia foram chamados para examinar a descoberta. mesmo eles ficaram estarrecidos com o que encontraram. Os ossos haviam sido acumulados ao longo de um período que posteriormente foi determinado por Radio Carbono como sendo de 1500 anos. 

A princípio, acharam que se tratava de um cemitério primitivo. Os cadáveres eram simplesmente lançados na fissura e se empilhavam lá no fundo. Contudo uma análise mais cuidadosa provou que os rituais estavam errados e que naquela caverna não ocorriam enterros, e sim sacrifícios humanos


A primeira pista foram os curiosos símbolos nas paredes e no chão de pedra. As imagens e pictogramas pintadas apontavam para um templo devotado ao Deus Maia da Chuva, Chaac. Essa divindade era considerada como um deus guerreiro, segundo a mitologia usava um machado de pura eletricidade. Os raios que riscavam o céu representavam a lâmina da divindade cortando as nuvens ao meio e fazendo com que de dentro delas escorresse a chuva. Considerado um Deus caprichoso, Chaac precisava ser apaziguado na época das grandes cheias ou cortejado quando havia seca duradora. Dele dependia a existência das cidades e o ciclo das colheitas de milho.

Os sacerdotes vestiam trajes longos com capas azuladas e traziam machados afiados nas mãos. Dançavam, girando e evoluindo loucamente no escuro, sob a influência de mezcal e peyote. Por vezes, um sacerdote feria um fiel ou um companheiro de ritual. Nesse caso, era considerado que a vontade de Chaac se manifestava e um sacrifício tinha de ser realizado.

Como muitos Deuses do Panteão Maia, Chaac era um Deus sanguinário. Não bastava que sangue fosse derramado em sua homenagem. Nada tão simples! Era necessário um sacrifício significativo.

Segundo estudiosos dos costumes Maias, dependendo da situação os sacerdotes sacrificavam entre 5 e 10 pessoas na época da seca, e metade disso para pedir que as chuvas cessassem. Os rituais eram violentos, mesmo para os padrões dos povos meso-americanos. As vítimas eram amarradas em totens ou mesas de pedra, braços e pernas esticadas e abertas. Cortes eram feitos nos pulsos e na garganta para que o sangue corresse abundante sendo recolhido em bacias pelos ajudantes. 

A ferramenta de execução, contudo, era o machado. Assim que o fluxo sanguíneo diminuía, o sacerdote erguia a pesada arma com lâmina de sílex e desferia um golpe letal no pescoço que por vezes separava a cabeça do corpo. Por vezes, sacerdotes esquartejavam a vítima para assim homenagear Chaac. 


Enquanto o precioso sangue era recolhido numa bacia para ser espalhado nas plantações, o corpo, agora inútil, era recolhido pelos ajudantes, e arremessado na fissura no chão. Caindo na escuridão, ele se juntava aos ossos das outras vítimas para jamais ser visto novamente.

A equipe de arqueólogos removeu 9,566 ossos do fosso, muitos dentes e fragmentos. 

A maioria das ossadas evidenciava que a morte havia sido causada por violência e que os corpos eram invariavelmente lançados no fosso na conclusão do ritual. Caso Chaac não atendesse aos pedidos, mais sacrifícios eram providenciados até ele responder positivamente. Segundo registros, os Maias na região enfrentaram ao menos oito grandes períodos de seca, nos quais sacrifícios se tornavam recorrentes. O mais aterrador da descoberta, no entanto, é que pelo menos metade das ossadas pertenciam a crianças que segundo análise tinham entre quatro e dez anos de idade. 

Crianças segundo as crenças de vários povos pré-colombianos tinham um sangue mais poderoso e forte, por isso eram as vítimas preferidas. Isso, sem mencionar que crianças eram muito mais suscetíveis ao controle, por coação ou intimidação.

Mas quando a gente pensa que não pode piorar... pense novamente.

Uma médica forense chamada para analisar especificamente as ossadas de crianças descobriu através de análise química nos dentes, que elas não faziam parte da região. O mais provável é que a grande maioria delas tenha sido trazida de algum outro lugar, possivelmente vendidas ou capturadas especificamente para se converterem em sacrifícios.


De onde vieram essas crianças? Elas foram voluntariamente entregues pelos seus pais? Seriam órfãs? Há muitas possibilidades, mas nenhuma delas é especialmente agradável. E uma vez que são tantas vítimas e vindas da mesma área parece caracterizado algum tipo de rede de tráfico de seres humanos. Sabe-se bem de povos que rendiam tributos aos Maias pagando aos Governantes ouro, grãos ou víveres, é possível que algum povo cedesse também crianças como forma de saudar sua dívida?

A resposta tristemente é que sim. No passado remoto, é bem provável que algum povo possa ter sido submetido a indignidade de oferecer um tributo na forma de crianças para abastecer os rituais sangrentos de Chaac. Elas seriam escolhidas à dedo e levadas em longas peregrinações até seu destino final. No sul do México, em Chichén Itzá, também foi encontrado um complexo subterrâneo onde a maioria das ossadas pertencia a crianças sacrificadas para aplacar a fúria dos Deuses. Ao que tudo indica, essas vítimas também vinham de longe, de algum povo conquistado.

Francamente, não quero nem pensar no horror que as paredes dessa caverna testemunharam e em todas as atrocidades que foram cometidas nesse lugar sinistro.

Fonte: Mundo Tentacular

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