06/04/2018

A tragédia do Alianza Lima


Em 1987, um desastre aéreo comoveu o Peru e amputou umas das mais promissoras safras do futebol peruano. As circunstâncias nebulosas fazem do acidente um mistério até hoje e fomentam algumas teorias da conspiração em relação a um possível acobertamento dos culpados por parte da marinha peruana. Convido os amigos e amigas a conhecerem um pouco mais a respeito dessa tragédia e das teorias conspiratórias que a cercam.

A tragédia peruana

O continente inteiro abalou-se com a tragédia da Chapecoense, em 2016, mas no Peru houve especial comoção, já que trouxe à memória outro desastre aéreo: em 1987, um acidente com o Fokker F-27, de propriedade da Marinha, dizimou a jovem equipe do Alianza Lima, deixando o país inconsolável e amputando uma das mais promissoras gerações do futebol peruano.

Um dos maiores e mais populares clubes do Peru, o valeroso Alianza está acostumado a superar provações. Nas últimas décadas, a torcida blanquiazul passou por longos jejuns de títulos nacionais. A década de 2000 foi até benevolente, com quatro campeonatos vencidos, mas antes disso houve o maior período sem vitórias da história aliancista, praticamente vinte anos, entre 1978 e 1997, e depois mais onze temporadas, de 2006 a 2017, sem levantar sequer um troféu.

A seca de conquistas, no entanto, não se compara ao capítulo mais doloroso já suportado pelo clube de origem italiana. Em 8 de dezembro de 1987, o Alianza Lima tornou-se vítima da maior tragédia do futebol peruano, quando o voo que trazia a equipe desde Pucallpa, onde havia vencido o time local pelo campeonato peruano, caiu no Oceano Pacífico, a poucos quilômetros do aeroporto de Lima. Morreram 43 pessoas, a maioria vinculada ao clube, inclusive todos os 16 jogadores listados para o jogo e a comissão técnica.

Além de abreviar vidas e disseminar a dor entre as famílias e por todo o país, o acidente teve como efeito colateral uma fissura na história do clube. Levou consigo uma safra que prometia demais, apelidada de Los potrillos, que então liderava o campeonato e estava engatilhada para acabar com o hiato de títulos que já alcançava nove anos (e, devido àquela noite macabra, só teria fim uma década depois). Entre as vítimas, o promissor meio-campista Carlos Bustamante, autor do último gol da equipe, e Luis Antonio Escobar, de apenas 18 anos, maior joia do futebol peruano na época. Convocado diversas vezes para a seleção, inclusive principal, era conhecido como El potro – daí o apelido daquela formação.

O jovem elenco era considerado fundamental para o futuro do futebol peruano e provavelmente a tragédia contribuiu de forma decisiva para o largo período de ausência em Copa do Mundo – na Rússia, o time peruano volta a disputar um Mundial após 36 anos. Também faleceram no desastre Marcos “Chueco” Calderón, considerado o melhor técnico peruano da história, comandante da seleção nacional na conquista da Copa América de 1975, e o experiente arqueiro José "Caico" Gonzalez Ganoza, cuja linhagem continuaria fazendo história pelo selecionado nacional – o atacante Paolo Guerrero é seu sobrinho e inclusive costumava entrar em campo com o tio.


A tragédia comoveu o país de todas as formas. Os torcedores do Alianza realizaram uma romaria até a orla do mar de Ventanilla, localidade onde o avião caíra. Sensibilizado com a situação, o Colo Colo, também vítima de um acidente aéreo anos antes, emprestou vários jogadores para que a esquadra blanquiazul concluísse a disputa do campeonato, atitude que estreitou demais a relação entre os clubes e suas torcidas, amizade que perdura até hoje. Mesmo ídolos já aposentados, como Teófilo Cubillas, voltaram a vestir a camisa do Alianza para ajudar a superar aquele momento atroz.


Na despedida das vítimas, no estádio Alejandro Villanueva, diante de milhares de torcedores, um singelo e primordial objeto concedia algum significado àquela imensa perda e mostrava que Los Portrillos podiam não ter ganhado nenhum campeonato, mas haviam garantido lugar nobre na memória do clube, que desde então convive com seu maior trauma: no gramado, junto aos corpos, estava exposta a bola do último jogo em Pucallpa, que restou intacta do acidente e foi devolvida pelo mar.

Os mitos e lendas que cercam o desastre

A morosidade nas investigações por parte da marinha peruana provocou diversas versões populares sobre o acidente. Oficialmente, o que se afirma é que se tratou de uma falha mecânica sucedida por erro humano. O painel de controle entrou em colapso e o piloto Edilberto Villar Molina não pôde verificar se os trens de pouso estavam funcionando normalmente. Em meio ao pânico, o avião perdeu altitude e caiu no mar.


Em 2006, o programa de TV La Ventana Indiscreta (A Janela Indiscreta) informou que um relatório da própria empresa Fokker alertara um ano antes para o fato de o piloto ser inexperiente em voos noturnos e não reagir bem em situações de emergência. Diante de tal relatório nada teria sido feito a respeito.

Um fato, aliás, é muito peculiar: o piloto foi justamente o único sobrevivente da queda do avião e jamais manifestou-se publicamente sobre o que aconteceu na cabine, na verdade após o acidente ele nem sequer teria se reunido novamente com certos familiares, como tios e primos. Hoje alega-se que Edilberto vive fora do país, ninguém sabe onde, muitos asseguram que protegido pela Marinha. Ele teria concordado em levar a culpa e por isso teria recebido da Marinha um certo sossego. Outras pessoas acreditam que o piloto, que também era tenente, foi silenciado para toda a eternidade pela marinha.

Por lesão, contusão ou opção técnica, cinco jogadores não estavam no voo fatídico. Um dos sobreviventes é Benjamín Rodríguez, que ano passado também manifestou suas dúvidas em relação às versões oficiais. “O único que sabe a verdade é o piloto. Ele nunca deu uma explicação. Também não apareceu a caixa-preta, que era um fator fundamental para saber o que aconteceu.” Outro dos jogadores que a roleta do destino preservou foi Juan Reynoso, que teria exitosa carreira no futebol internacional e na seleção peruana, mas é considerado um traidor pelos aliancistas por mais tarde ter vestido a camisa do rival Universitario.

Parentes das vítimas relataram que na noite do acidente foram impedidos de auxiliar na busca aos corpos e que mesmo a Marinha tardou em iniciar a operação, apesar do constante contato entre o avião e a torre de controle. Esses depoimentos e as circunstâncias nebulosas envolvendo a tragédia tornaram-se um terreno fértil para a proliferação de diversos mitos que correm na boca de la gente.

Uma dessas histórias relata que Armando Leveau, historiador do Alianza Lima, recebeu de um médico, o  Dr. Luis Espejo a notícia de que o corpo do treinador Marcos Calderón havia sido localizado nas águas, mas que podia-se observar marcas de tiros. "Ele tem oito tiros de FAL em seu corpo", disse Espejo a Leveau. Outras pessoas teriam afirmado na época que os corpos de parentes, vítimas do desastre, apresentavam ferimentos semelhantes a ferimentos a bala.

Várias das hipóteses não oficiais sobre o desastre de Ventanilla foram compiladas e analisadas por Aldo Panfichi e Victor Vich em Fantasias políticas e sociais no futebol peruano: a tragédia do Alianza Lima em 1987, ensaio publicado em 2008.

A mais propagada dessas versões diz que o avião fora sequestrado, e estava carregado de cocaína e acabou derrubado pelas próprias forças armadas. Na época, o Peru enfrentava uma guerra contra o narcotráfico.

A história ganha ainda mais relevância com o testemunho de familiares que afirmam terem observado marcas de bala nos corpos de seus parentes. Outra versão diz que o piloto, na verdade, sequer embarcou no avião e fora visto em Pucallpa naquela mesma noite – o que explicaria o fato de ter sobrevivido e também a demora da Marinha para iniciar as buscas, pois precisaria forjar uma cena.

Como alguns corpos nunca foram localizados, surgiram vários testemunhos afirmando que atletas foram vistos em outros lugares tempos depois – especialmente Alfredo Tomasini, jogador que o piloto, conforme seu próprio depoimento a portas fechadas, afirmou ter observado no mar, mas que não teria resistido aos ferimentos. Motivados pela falta de explicações convincentes ou pela intenção de manter Los potrillos ainda presentes, da forma que for possível, provavelmente nem os fatos, nem as versões jamais serão esquecidos.


Fonte: Meia Encarnada

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